mil (e um) avessos .

Nesse exato momento estou ajeitando as minhas roupas naquela maleta preta que compramos ao passar por Veneza; me lembro que você reclamava a todo o instante do cheiro de esgoto que a cidade tinha, mas ficava encantada com tanta beleza e tanta folia (o seu olhar não parava de brilhar a cada instante que via as ruas tomadas por aquelas máscaras e fantasias). Agora, o seu olhar está sem o brilho de outrora e, da porta, você me pergunta, fria,  se eu não estou esquecendo nada; eu só te olho enquanto jogo aquela camisa bege que você acha que cai tão bem com a gravata azul-petróleo, pensando em dizer que sim, e perguntar onde você deixou todos aqueles planos, aqueles projetos bobos que fizemos enquanto estávamos deitados na mesma cama em que se encontra, agora, essa mala, mas prefiro me calar diante da sua imagem gípsea com os braços cruzados e o olhar distante, sem expressar nenhuma emoção…

Na pecinha já não estão mais aquelas fotografias que tiramos na visita que fizemos para a fazenda de seu tio, nem o cinzeiro que guardava os restos de meus cigarros, provavelmente você os jogou fora junto com todo aquele amor que você dizia sentir. O que aconteceu? Me pergunto a todo o instante, afinal ontem à noite você disse que me amava e que queria cerejeiras no quintal; hoje, você recusou minhas rosas e me recebeu com os olhos marejados me pedindo tirar as minhas coisas de sua casa, que a mala já estava na cama, que eu só precisava jogar as coisas lá. Tudo bem, eu confesso: passei muito tempo longe, tempo o suficiente para você me odiar, mas naquela manhã nebulosa e fria, quando nos encontramos no café que fica perto do teatro, você sorriu aquele riso cheio de luz – que até parecia que as nuvens resolveram se abrir e deixar o sol mostrar seus raios mais luminosos – e perguntou se podia sentar comigo. Sim, é claro, você podia. E você me aceitou de volta em sua vida, e a minha vida voltou a ser você, e agora estou aqui – onde o inicio, o meio e o fim de nossa história teve inicio – fechando uma mala cheia de boas recordações enquanto você me observa do umbral  de seu quarto.

Acho que você tentou sorrir para substituir o tom doce de sua voz a me dizer: “Ei, meu amor, a vida segue.”. Mas, eu já sei disso; ela segue… Em passos lentos e serenos, como os meus na direção da saída de sua casa.  Pouco antes de sair, pego o meu chapéu na arara e te vejo caminhar pela sala na direção da escrivaninha de jacarandá onde ficam espalhados os papéis do interminável romance que você escreve; você senta e volta a escrever, e eu espero que você se volte para mim, me pedindo pra ficar. Mas, você não o faz.

“Adeus.”, eu sussurro meu ultimato mesmo sabendo que você não escutará – quando começa a escrever, parece que se tranca em um universo paralelo. Ainda te contemplo ao jogar as chaves de sua casa no aparador. “Escritoras…”, eu penso, “Sempre tão inconstantes.”, concluo ao fechar a porta com um trecho de um dos contos de Florbela Espanca a perturbar a minha mente: “Que mulher era então ela? Que mulher era aquela mulher? Que mulher era a sua mulher? Quantas mulheres ele tinha?“. Não sei. Nunca saberei. O melhor é ir embora antes que ela mude de ideia e me enlouqueça de vez ao me mostrar todos os seus outros mil avessos.

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