verbo conjugado no passado

Hoje eu o encontrei.

Estava no café lendo aquele meu livro de cabeceira quando o vi chegar. Ele me olhou de um jeito diferente, acho que é daquele jeito de quem acha que você está mais bonita do que da última vez em que se viram, e sorriu. Não lembro exatamente a data que nos vimos pela última vez, mas tenho certeza que foi no enterro do Joaquim, porque ambos estávamos muito abatidos pela morte de alguém tão querido, foi ali também a última vez que nos abraçamos. Ele melhorou bastante desde aquele dia… Está com o olhar menos triste, e essa barba cheia e bem feita quase me faz esquecer que ele era o mesmo meninão que brincava com os meus defeitos e com os meus sentimentos há alguns anos atrás.

Naquela época, se você me perguntasse qualquer coisa sobre ele, eu saberia responder sem balbuciar, mas hoje já não sei muita coisa a seu respeito; se eu ainda frequentasse as reuniões de nossa antiga turma, era bem provável que eu soubesse porque ele se divorciou e como o filho dele está indo na escola, mas parei de ir a esses encontros quando perdi a voz logo que ele veio falar comigo com um brilho diferente no olhar e cheio de empolgação. E eu vivia dizendo por aí que eu já tinha superado a nossa história…

Não me importo com ele, não como antes. Mas, as pessoas ainda insistem em gastar o tempo delas me contando intrigas sobre a vida dele, e eu não canso de me perguntar o porquê. Acho que é porque elas sabem que apesar de já não mais amá-lo, ele ainda mexe muito comigo e que isso, de alguma maneira, vai arrancar a casquinha de uma das feridas que carrego n’alma; acho que é aquele tal de sadismo, me entende? Ter, nos olhos, o brilho do prazer ao ver o brilho da tristeza reprimida no olhar de outrem, que engole as lágrimas e alimenta o orgulho com um falso sorriso…

Quando o vi essa manhã, com esse olhar tão diferente, nem achei que fosse ele – tinha muita admiração – e pensei que tivesse se tornado um novo homem, mas quando ele sorriu, pude ver que aquele meninão de anos atrás ainda estava lá, meio escondido, meio reprimido, esperando a oportunidade certa de mostrar os seus encantos. Não sei se eu era a oportunidade certa para que ele ressurgisse, mas eu preferi retribuir o sorriso, acenar, fechar meu livro e sair do café, antes que eu pensasse em conjugar o verbo ‘amar’ para ele em tempo presente. 

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