quinquilharias

Ontem, enquanto caminhava pela pracinha, me disseram – entre os mais diversos assuntos – que eu deveria te jogar fora, que você não presta e aquele blábláblá que eu conheço de cor e salteado, porque já escutei centenas de vezes das mais variadas fontes e sei que é verdade. Logo que ouvi isso, soltei aquele risinho cafajeste que te conquistou porque, bem, você sabe, é até engraçado pensar que eles realmente acharam que a tua pseudo-inocência conseguiria apagar as lembranças de todas as coisas que o teu corpo sensual produziu em mim.

Acho que depois que eu ri, a pessoa saiu – provavelmente, um tanto irritada por eu não ter dado atenção merecida aos seus conselhos, ignorando o famosíssimo ditado de que “quem avisa amigo é” -, mas não lembro muito bem do que aconteceu, afinal, uma série de pensamentos encheu a minha cabeça. Descobri que me enche de angústia não saber o que, em você, abalou demais em mim. Inicialmente, achei que fosse o sexo ou os seus peitos, mas sexo bom e peitos bonitos não são duas coisas difíceis de achar aqui ou acolá, seu rosto não é um dos mais bonitos (você tem olhos meio tristes e lábios meio murchos), a sua voz não é tão doce quanto eu gostaria e nem seus gostos os mais agradáveis, pode até ser as curvas de seu corpo – elas são perfeitas como nunca vi em nenhuma outra criatura forjada por Deus -, mas não tenho tanto apego por elas. Mas, seja lá o que você tem de diferente de todas as outras trocentas que já cruzaram o meu caminho, isso me fez fumar mais, beber mais, dançar menos e passar as tardes ouvindo qualquer coisa que me deixe meio triste e mórbido, como aquele teu olhar perdido (ou embaraçado?) fixo em todos os cantos da parede e também em lugar nenhum, enquanto seus braços estão agarrados ao mesmo lençol sujo que envolve o teu corpo, e a tua mente, provavelmente, presa às suas crônicas e incontáveis angústias.

Assim, como a maioria das pessoas que te conhecem, Rosa, eu não te quero bem – na maior parte do tempo eu odeio tudo em você; teu batom vermelho – mais parece sangue a brotar de teus lábios que sempre me parecem estar faminto -, teu corpo – que parece um convite à perdição -, tua voz e aquele teu maldito perfume, que sinto o cheiro ao cruzar cada esquina dessa cidade. E confesso envergonhado: foi por isso que eu pensei em te jogar fora da primeira vez que me aconselharam, mas mudei de ideia logo que te vi se aprontar pra ir embora, me perguntando – com um cigarro na boca e as mãos ocupadas vestindo a calcinha – o que tinha me dado naquela noite. Foi ali que eu tive a certeza de que não encontraria ninguém como você, sabe? Daquelas mulheres que gostam de ler o horóscopo só pra rir do destino, que conseguem abrasar a minh’alma só com a tristeza do olhar, uma mulher que me conquiste pelos seus defeitos mais cruéis ou que me entenda só pelo jeito que tamborilo os meus dedos.

E foi aí que eu descobri qual era a sensação da impotência. Como eu posso ter algo tão ruim em minha vida e não conseguir arrancar esse mal dela? (E é bem engraçado te ver sorrir de tudo isso agora com um copo de conhaque na mão, porque parece que as ironias do destino também te divertem bastante…) Fiquei irritado naquele dia e joguei fora algumas das coisas que eu estocava em meu porão; tinha um espelho antigo entre todas essas quinquilharias, ele era grande e tinha uma belíssima moldura que já estava estragada, o vidro também não estava intacto, estava cheio de rachaduras, mas eu ainda podia ver o meu reflexo. Aí eu sorri, sabe por que, Rosa? Porque eu descobri que não consigo te jogar fora, pois você é como o meu espelho: apesar de estar destruída e ser aparentemente inútil pra mim, toda vez que eu olho pra você, eu consigo lembrar de quem eu sou. Pode rir à vontade, e ria ainda mais agora, mas maior verdade nunca saiu dos meus lábios: teu mal me faz bem tremendo, mulher! E me admira que alguns desses ditados que minha mãe sempre me falava quando eu era menino, tenha agora uma ponta de sentido, ‘há males que vem para o bem. ’, era o que ela dizia, mas eu fui além, e escolhi que esse teu mal assolasse a minha vida.

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