Nota

amargo .

Mesmo com o seu suposto amor me estraçalhando, mesmo com as suas mentiras me atordoando, eu ainda insisto em ser a sua garota. É extremamente complicado entender o porquê disso, já me falaram em algum tipo de masoquismo e eu já acreditei em algum tipo de feitiço que você me lançou, mas a verdade é que eu nunca encontrei a resposta e, provavelmente, nunca vou encontrar, porque algumas coisas devem permanecer como um mistério – é o rumo natural da vida.

Penso que logo, logo você vai chegar em casa bêbado, com aquele cheiro de cigarros e prostitutas, então eu sinto raiva de você, sinto vontade de pegar as minhas coisas e ir para longe, para qualquer lugar onde eu não encontre seus olhos acinzentados, mas já são seis da manhã – você costuma chegar às cinco – e eu não consigo evitar de pensar se alguma coisa ruim aconteceu contigo, e o meu coração se enche de angústia e preocupação. Devo confessar: pensei em fazer uma oração para que você estivesse bem, mas acho que o mais correto é deixar Deus fazer o que achar melhor, talvez isso seja um presente, não? Se algo te acontecesse, seria um passo para que eu me libertasse dessa coisa doentia que sentimos um pelo outro…

Junto as minhas mãos, mas ao invés de fazer um mantra ou qualquer coisa assim, penso em minha vida sem você. Seria bem melhor, não nego, mas não teria o seu cheiro de bebida, nem os seus cigarros vencidos ou a sua jaqueta preta de couro, não teriam os conselhos de meus amigos nem de meus parentes e nem a minha resposta tão conhecida: “eu o amo”; não teriam as suas músicas altas pela manhã, nem as nossas brigas pelo decorrer do dia, tampouco seus olhos cinzas, seus lábios murchos e o seu sorriso falso. O que seria de mim sem você?

Finalmente, a porta se abre e eu o vejo entrar trôpego e com uma flor roubada do cemitério nas mãos, eu sorrio e o abraço, e posso sentir o seu cheiro desagradável.

– Você disse que ia parar de fumar.

É o que eu falo, mas, ele só balança a cabeça e, quando tenta falar alguma coisa, corre para o banheiro pra vomitar. Eu o acompanho rindo, mesmo já estando acostumada com aquela cena.

– Eu te amo.

Eu falo parada no umbral com os braços cruzados. Ele levanta, dá descarga, limpa a boca com a manga da jaqueta e me beija, diz que também me ama que tem sorte que eu seja a garota dele, tira a jaqueta e se joga no sofá de qualquer jeito adorável para um ogro como ele. Me sento no braço do sofá e acaricio a batata da sua perna, olho o céu através da janela e sorrio em agradecimento, parece que Deus atendera as orações que eu não fiz.

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