“(…) – E Maria era bonita?

– Beleza de lá de dentro. Oio triste com as tristezas do mundo e de uma fia que tava longe, perdida, negada. Quando soube que eu tinha lutado na guerra santa, ela quis se ajoelhar de junto de mim. Deixei não. Não era mulher pra se ajoelhar, era pra ficar de pé. Chorou. O capitão Virgulino Lampião pegou nas duas mãos dela e disse: não fraqueja, Maria, nossa missão não é fraquejar, se ocê não pode acalentar sua fia, acalenta o fuzil.

– Ela era bonita?

– Que importa a beleza? A beleza de Maria ficou até o fim, até a hora que os macacos cortaram a cabeça dela. A beleza de Maria tava no compreender da pobreza, tava na farinha e na carne-seca que dava pros que tinham fome. Tinha um ouvido de passarinho da madrugada e um brilho de estrela nos óios tristes. Quando o capitão suspirava, ela se encolhia toda. Ficava parada assim, sabendo que podia morrer com ele, e respeitava o suspirar dele. Ela escolheu aquilo e naquilo, naquela guerra, tava o fim dos dois juntos. Era o querer dela. Andei com eles e vi: as tristezas do capitão eram as tristezas de Maria e o avesso, como num espelho. Um dia ela se enfeitou muito, mais do que de costume, e Lampião disse: hoje ocê ta triste demais, Maria.”

(A Menina, a guerra e as almas – Conceição Senna)

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