a paz daquele sorriso .

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Naquele silêncio assustador que só os hospitais conseguem ter, ele segurava a mão dela perdido em seus pensamentos. Não dava atenção a muita coisa, exceto ao aparelho que fazia um barulho insuportável indicando que ela estava viva, mas era só por isso: porque lhe dava a certeza de que ela estava viva.

Ele olhou o aparelho com os olhos pesados, passou a noite em claro vendo-a repousar, agarrado à esperança de que aqueles presságios bobos dela fossem sem fundamentos.

– Promete? – ela perguntou apertando a mão dele. Ainda tinha beleza em seus traços, mas uma beleza protegida pela sombra da morte.

– Prometo sim. – olhou-a e coçou os olhos. Prometeria tudo o que ela lhe pedisse

– Você não ouviu o que eu disse. – ela sorriu. Ele, gentilmente, retribuiu o sorriso

– E você também não. – pausou – Você não vai morrer. Eu prometo.

Ela sorriu um riso cheio de paz. Há tempos se preparava para a sua partida – desde que o conhecera, soube que a sua missão estava interligada à ele.

– Promete? – só repetiu

Ele revirou os olhos.

– O que?

– Que vai cuidar das crianças direitinho…

– Você sabe que sim.

Silêncio. Ele não poderia perdê-la. Não agora. Precisava dela, as crianças precisavam dela e o mundo também!

– “Tudo bem, garotinho.” – ela conseguiu atrair a atenção dos olhos tristes dele – “Todas as coisas morrem. São os planos de Deus.” – falou o que tinha ouvido certa vez em algum programa na TV.

Ele beijou a mão dela e colou-a em seu rosto enquanto chorava. Ela sabia que aquilo seria mais difícil para ele.

– Promete que não vai me esquecer? – ela disse levantando o rosto dele para que pudessem se olhar nos olhos. Mas, ele só meneou a cabeça ao ver que ela também derramava algumas lágrimas. – Não vai me esquecer mesmo se conhecer outra pessoa, mesmo se voltar a se apaixonar…

– Eu prometo. – ele arranjou voz

Silêncio… Apenas a angústia visível dele que tentava se acomodar, afinal homens não choram… Ou, pelo menos, foi assim que ele aprendeu. Limpou as lágrimas com o pulso.

Ela lançou um olhar ao aparelho que ressoava a sua vida. Seu tempo se esgotava.

– Não se esqueça de lembrar ao Isaac de escovar os dentes, e antes de dormir, leia as histórias da Manoela e ajude-a nas tarefas de casa. – ele não sabia para onde ela olhava naquele instante, mas não demorou a que ela olhasse o marido – E não esqueça de lembrá-los todos os dias que eu os amo.

Mais silêncio. Se tivesse um frasquinho com esperança, ele o usaria toda naquele instante; se acreditasse em alguma coisa, se apegaria a isso, mas só acreditava no amor que sentia por ela, e ainda assim não acreditava que ela sobreviveria.

– Sabe que eu sempre fui uma meninona, não é? – ele sorriu ao ouvi-la – Eu sempre gostei de contos de fadas… Acho boba, mas linda aquela história de que um beijo de amor sincero é a arma mais forte do mundo.

– Acha que eu posso te salvar com o meu beijo? – ele sorriu, ela também.

– Não, mas ele pode me ajudar a seguir em paz.

Ele sorriu. Era uma meninona mesmo… Gostava mais dessas bobagens de contos de fadas, beijos e histórias de amor, do que Manoela. Ele levantou da poltrona e sentou na maca onde ela estava, aproximou o seu rosto do dela e passou uma mecha de seu cabelo para trás; olhou aqueles olhos e sentiu uma serenidade incomum, mesmo que fosse ali uma das habitações da morte. Ele beijou a testa dela. Ela sorriu.

– Eu te amo, você foi a melhor coisa que me aconteceu porque me deu a minha maior riqueza.

Ele alargou o sorriso ao ouvir aquilo, pois se lembrou que tinha dito a ela aquelas mesmas palavras em algum lugar do passado.

– Eu também te amo, minha linda. – selou os lábios dela – Pode ir em paz.

E ela sorriu, ajeitou uma mecha do cabelo que ele sempre deixava bagunçada e, com a paz que ele desejou, se foi.

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