sobre o que se foi .

Serena é a canção que toca na vitrola.

Mas, toda essa calmaria me faz lembrar que, naquele fim de tarde de abril, pouco antes das tempestades, as nuvens também estavam calmas.

Tenho mil motivos para odiar essa canção – era a nossa favorita – mas, eu gosto de mergulhar no mar de recordações que ela me trás, e poder re(vi)ver nossas danças na sala ou na cozinha, da bagunça desmedida que fazíamos pela casa e da pouca (ou nenhuma) atenção que dávamos à ela, apenas deitávamos no chão e ríamos como se não houvesse nada melhor no universo. Olhos no teto, mãos sobre mãos, felicidade infinda.

Mas, veio a tempestade e tudo mudou…

O rumo do barco, meu riso contente, sua voz se calou… E já não tinha nada em que eu pudesse me agarrar – nem um pouco de esperança –, o amor que eu carregava já não tinha dono, e as minhas danças já não tinha par.

De tudo o que tínhamos, só restou o meu velho vestido carmim molhado e, ao ver pedaços do barco que as ondas violentas de Netuno traziam, a angústia em saber onde você estaria. Só mais tarde viria a ter a certeza de que aqui você já não mais estava – seu corpo descera para a escuridão dos abismos do mar e sua’lma repousava ao lado do Criador em algum lugar do Paraíso.

Tenho a impressão de que aquele amor que você me tinha juntou-se ao que eu tenho por você e, mesmo que meu coração esteja pela metade, ele chega a explodir. Eu já tentei te tirar de mim, tirar nossas canções minha cabeça, as nossas lembranças de meu coração e, também, esse amor amaldiçoado que me impede de seguir a vida ao lado de outrem, mas não consegui me desvencilhar.

Me lembro, meu amor, que eu quase parti com você para os campos celestiais, as ondas me empurravam para algum lugar obscuro, mas algo me jogou pra longe, longe de tudo que um dia eu tive e me fez sobreviver com meu vestido carmim e um vazio no peito.

Tenho a impressão que aquela tempestade, hoje, faz parte de mim, pois já não tenho mais dias de verão, e até mesmo quando a nossa canção toca, o meu coração continua nublado e meus olhos transformam-se num reflexo vivo do que aconteceu naquele fim de tarde de abril.

 

 

 

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