conversas com Leonardo .

– Eu não suporto pensar na possibilidade de um outro homem se esfregando no corpo dela! – Augusto exclamou do outro lado da mesa com certa ira em seu tom de voz. Depois levantou e seguiu até a janela para observar as árvores da estação.

Leonardo estava jogado na cadeira giratória, rodava de um lado ao outro como se a sua vida fosse isenta de preocupações. Odiava charutos, mas aqueles cubanos que ganhara de um grande falso amigo eram de uma textura e de um sabor demasiadamente refinados; pensou em comentar qualquer coisa sobre isso com Augusto, mas ele era demasiadamente sentimental quando se tratava de Liz, então, pigarreou e disse:

– Você não suportar isso só vai piorar as coisas! Pense… – manteve o olhar distante pensando em seus argumentos mais consistentes – Historicamente falando, e ignorando o fato de que muitas dessas histórias não sejam verídicas, quantos homens morreram por não suportar ver a amada nos braços de outro homem? – sorriu ao dizer: – Por isso só amo a mim mesmo

Augusto se permitiu ouvir o irmão uma vez na vida, mas ao ouvir a sua última observação apenas revirou os olhos, arrependeu-se de sua decisão.

Eram gêmeos, mas física e essencialmente diferentes. Se Augusto era doce e centrado, Leonardo era de uma personalidade agridoce e displicente; se Augusto tinha olhos castanhos e miúdos como os do pai, Leonardo tinha os grandes olhos pretos da mãe.

Talvez fossem diferentes assim porque as Parcas, as três irmãs que tecem o destino, assim resolveram que seria; ou talvez porque, desde que eram crianças, seu pai resolvera instigar neles o instinto competitivo e o surgimento de diferenças – provavelmente, agora em seu túmulo, ele gemia de arrependimento.

– Leonardo… – Augusto puxou a cadeira da presidência e ajeitou as mãos tal qual faria o seu pai – Me diga o que você entende sobre amar alguém? O que… – ele riu lembrando das histórias que sabia a respeito do irmão – Você faz as mulheres sofrerem, você brinca com os sentimentos delas e sai por aí resmungando quando leva uma boa surra ou um belo tapa na cara. Você não tem compromisso com nada! Nem com você mesmo, nem com essa empresa que o papai te deixou porque você, diferente de mim, era mais ambicioso, mais visionário…

Leonardo cheirou o charuto como se a fala de Augusto não tivesse nenhuma importância. E não tinha. Esqueceria de tudo o que o irmão falou logo que atravessasse a porta.

– Não é hora para crises de ciúmes, maninho. O velho morreu e eu fui muito responsável confiando a presidência da empresa a você, sabendo muito bem que eu poderia ter deixado ao léu… – ele olhou o irmão por cima do charuto, piscou o olho e sorriu, depois o guardou com o restante numa pequena caixa amadeirada – Me admira que você, um homem inteligente, seguro, se arriscando a falar de coisas que não tem como provar. – Augusto ia retrucar, mas Leonardo não permitiu – Que eu não entendo do amor?! Que eu brinco com as mulheres?! – ele riu levantando da cadeira e ajeitando a roupa – Bem, essa parte é verdade. Mas, o velho Frederico nos criou com condições diferentes, em cenários diferentes, para que tivéssemos personalidades diferentes.  – ele tirou o relógio do bolso e o guardou novamente após ver as horas – Mas, eu já fui como você, maninho. – pausou como se tivesse vergonha daquilo – Eu já não suportei a ideia de um outro homem se esfregando no corpo dela. – Augusto não conseguiu esconder a expressão de surpresa, afinal se tinha uma coisa que nunca conseguiu imaginar foi Leonardo apaixonado. Leonardo conferiu as suas unhas da mão direita sem se importar com a reação do irmão, depois pôs a mão no bolso – A questão é que ela gostava dele, então, ao invés de ficar choramingando enquanto olho as folhas das árvores secarem e caírem, como você, eu evoluí e me tornei essa criatura magistral que se encontra diante de seus olhos.

– Você apaixonado? – Augusto insistia em não acreditar

– Qual o problema? – ele caminhou em direção à saída – Eu já tive um coração, até que descobri que homens com coração não divertem nem atraem as mulheres.

– Sabe que nada disso do que você está falando vai mudar o fato que eu não vou suportar vê-la com um outro homem, não é? – falou olhando a caneta que tinha em mãos.

Leonardo apanhou o chapéu na arara e a bengala que estava recostada na parede.

– Nunca duvidei disso. – falou sorrindo – Só te contei isso porque, um dia, você também vai evoluir e me dizer: – ele deu um suspiro teatral – “É, Leonardo, você tinha razão.”.

Augusto gargalhou enquanto o irmão saía da sala, mas falou em alto e bom tom, e a tempo que ele ouvisse:

– Faz-me rir.

Logo ouviu a porta fechar, e depois de um tempo encarando o vazio que preenchia a cadeira que antes Leonardo ocupava, ele girou na direção da janela. Olhou uma folha cair. Leonardo apaixonado… Ele não sabia se deveria acreditar naquilo ou esquecer, como já fizera com tantas outras histórias que o irmão compartilhara com ele. Mais uma folha caiu. Por mais que não quisesse, tornou a imaginar Liz nos braços de um outro homem, gemeu de ojeriza e pensou que fosse vomitar. Uma outra folha caiu, mas ele não deu atenção, viu Leonardo atravessar o portão da empresa cortejando algumas jovens que passam por ali. Elas sorriram. Conheciam muito bem a fama que Leonardo tinha, mas corresponderam aos cortejos dele. Sorriu meneando a cabeça e voltou à cadeira para o seu escritório. “É, Leonardo…”, pensou sem entender as mulheres, “Talvez você tenha razão.”, pegou os papéis que ainda tinha que assinar. “Talvez…”

 

 

 

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