desabafo de uma maria (ou de uma joana)

Já cansei do que escolhi pra viver. Bem, talvez não tenha escolhido… Mas, prefiro acreditar em escolhas do que perder o resto de fé que eu tenho.
Eu deveria estar preparando o feijão porque daqui a pouco Joaquim chega pro jantar; jantar, porque almoço só lá na construção mesmo com aquela marmita que preparo pela manhã porque ele não gosta de comida dormida.
Eu deveria estar preparando o feijão, mas o menino não deixa! Chora o dia inteiro, berra a toda hora… Não tem instinto materno que aguente! A vizinha falou que eu sou amargurada. Não sou. Sou é cria de escolhas erradas, sem contar que choro de criança me perturba, ainda mais na hora de fazer a comida ou na hora da minha novela.
A verdade é que eu nunca quis ter filhos, Joaquim que me apareceu com essa ideia. Nunca quis, porque tinha sonhos e não tinha dinheiro – nem pros sonhos, nem pros filhos; Joaquim quis porque é homem, e homem é cabeça dura!
Ainda tenho que fazer o feijão, mas o menino tá chorando…
Não tenho dinheiro e pareço amargurada, mas só guardei meus sonhos num relicário qualquer.
O que eu devo fazer? O feijão? Cuidar do menino? Seguir minha vida? Mudar a direção das minhas escolhas? Lacrar o relicário? Ou abri-lo como Pandora abriu a caixa de Epimeteu?
Nunca pensei em nada além do preço da feira do mês, e agora reflito sobre o que eu chamava de vida e sobre o que escondi de mim mesma durante todos esses anos.
Parece que revivo o meu passado, e sentada no tapete da casa com meu pai me contando histórias, o vejo abaixar os olhos com tristeza e dizer: “Não seja como as outras, não seja.”, e sinto o seu pedido ecoar pelo meu coração. Eu não serei, papai, serei diferente de tudo o que você já viu. Vou dar peito para o menino, pra ver se ele dorme, vou terminar o feijão e arrumar minhas coisas. Quando Joaquim chegar, ele não vai assistir o jogo, ele vai me ouvir! Ouvir tudo o que eu escondi em minha alma durante todo esse tempo, ouvir os meus discursos feministas mal estruturados, mas vivos…! Tão vivos quanto os sonhos que eu pensei ter matado junto com o nascimento do menino, mas que ainda ardem em chamas dentro da minha alma gélida e esfomeada.
Entendo que ele não perdoe minhas ações e me chame de desnaturada e insensata, mas espero que um dia possa perceber que antes de ser esposa, eu sou uma mulher com uma alma livre que nutre sonhos e faz seu destino; e o meu destino é grandioso demais para que eu crie raízes ou me veja ancorada a qualquer coisa.

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