o despertar .

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Despertou com os primeiros e poucos raios do sol que refletiam em seu rosto, e nem precisou levantar da cama para ver através da janela as lindas gotas de chuva que caíam.

Fazia tempo que não chovia daquele jeito por aquela região, e ela já podia imaginar a balbúrdia que as pessoas fariam maldizendo aquela dádiva dos céus. Se bem que era suspeita a falar, afinal adorava a chuva; gostava de quando aquelas gotas caíam com força do céu e encharcavam o chão trazendo de volta o verde que os dias de sol fizeram a mata perder, ou de quando elas adentravam nos poros terrestres e faziam exalar aquele cheiro doce de terra molhada, e até mesmo quando elas deslizavam com delicadeza sob a sua pele e então ela se permitia dançar na chuva – era como se voltasse a ser criança, ou como se pudesse ser ela mesma em algum instante naquele mundo que tanto a sufocava.

Levantou da cama e se aproximou da janela, encheu os pulmões daquele ar que se purificava e fechou os olhos para poder sentir a liberdade que os ventos que sopravam a faziam ter. Sentiu o vento bagunçar um pouco os seus cabelos, mas não se importou, até porque a própria vida tinha esse mau costume: de bagunçar a gente. Sorriu, aquele riso de quem está começando com vigor, abriu os olhos e viu que a chuva se mantinha firme. “É um dos meus dias de sorte.”, pensou enquanto fechava a janela, queria poder ficar ali por mais tempo e admirar ainda mais a beleza da chuva, mas a vida ali era corrida, existia hora certa para tudo, e apesar de não querer encarar a realidade por trás da porta de sua casa, o seu dia de sorte estava apenas começando.

Por acreditar nisso, ou por algum sentimento bom que brotou em seu peito naquela manhã, ela escolheu o seu vestido mais bonito – aquele de bolinhas branca com bico de renda preta que a fazia parecer uma personagem de um daqueles filmes antigos que ela tanto gostava – e apanhou o guarda-chuva preto aposentado há meses na arara do depósito. Abriu a porta, saiu saltitante de casa, as pessoas a olhavam com estranheza – desacostumados com quem anda com um sorriso estampado no rosto. “Ou é doida, ou está apaixonada.”, comentou um senhor que estava no bar da esquina com um beberão, “Se bem que, no fim, os dois são a mesma coisa.”, e riu com o homem, já naturalmente bêbado, que não conseguia entender tão cedo toda aquela filosofia de boteco.

Ela não se importava, pelo menos não naquele dia, afinal estava chovendo! Chovendo como há tempos não chovia. Chovia lá fora, e dentro dela também. Chovia aquela chuva que tirava mágoas, rancores, amores que não deram certo e os deram, mas que não caminharam muito bem, tirava tudo, tudo de ruim que ela guardou e aqueceu durante todos aqueles verões infinitamente – e infernalmente – quentes. Tirou tudo de inútil que ela carregava, até aquele guarda-chuva preto que ela deixou guardado pendurado na arara escondida no depósito, até ele – seu antigo companheiro -, ela fez questão de abandonar; jogou na primeira lixeira que viu, afinal pra quê guarda-chuvas? Fazia tanto tempo que não chovia que ela resolveu se permitir parecer ou uma louca ou uma apaixonada, e se molhar, e girar, e dançar na chuva com o sorriso mais lindo que tinha.

É, era o seu dia de sorte… Há tempos ela não se permitia ser invadida por tanta felicidade. Uma louca…

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