Muito além (…)

Nunca tinha se deparado com ela naquele estado. Triste. Seu brilho, suas cores, seu sorriso… Tudo estava perdido na imensidão branca das paredes daquele lugar. Os olhos dela – sempre cintilantes e luminosos – estavam, agora, foscos, fixos em qualquer coisa que ele não podia enxergar, porque só existia no mundo dela. 

Ela estava deitada no chão gelado, também… Diante daquele calor que preenchia os últimos dias, nenhum colchão lhe parecia suficientemente confortável, preferia a dureza do chão. A verdade, é que nem se importava muito com tanto conforto… Já estava bem acostumada com a dureza da vida, das pessoas, mas, vez ou outra se permitia o luxo de deitar num colchão confortável.

Ele olhou-a mais atentamente. Os cabelos estavam desgrenhados, os olhos sairam do repouso em que estavam e passaram a ficar inquietos, cambaleantes, perdidos. Desentendido, ele sentou ao lado dela. Não encontrou resposta nem mesmo acompanhando o seu olhar. Resolveu deitar para acompanhá-la naquela viagem, para tentar compreender o que acontecia ali – ou naquele mundo paralelo que ela vivia.

– Constelações.

Ela disse apontando para cima sem olhá-lo. Ele apertou os olhos tentando enxergar, mas só via o teto – também branco – do quarto.

– Constelações.

E sorriu. Ele olhou-a, admirou seus dentes expostos numa felicidade que ele desconhecia, e quis provar daquilo; pensou que, talvez, a menininha que conhecera não tivesse se perdido no labirinto de si própria, restava algo vivo e luminoso, não só as sombras do desconhecido…

Mais uma vez, ele olhou o teto em busca das estrelas que ela dizia ver, mas só enxergava aquele branco, aquele vazio, sem graça e triste, nenhum brilho especial, nenhum rastro de cometa, nenhum sol cintilante… Nem se deu conta de quando a menininha tapou a sua visão com as pequenas mãos dela, enquanto soltava risos doces que antes preenchiam a casa e, hoje, só vivem presas nas lembranças que ele queria reviver.

Ela retirou as mãos de seus olhos e, ainda sorrindo, mais uma vez, apontou para o teto:

– Vê?! Constelações!

E gargalhou. Ele estava boquiaberto, achou melhor sentar diante do que via. Olhava para o teto como se algo mágico estivesse ali. E tinha. Ele também começou a gargalhar com a menina, e soluçava de felicidade. Apanhou-a em seus braços, beijou seus cabelos bagunçados e, ao ver o rastro de um cometa, concluiu:

– Vejo sim.

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