o templo da humanidade

Eu nunca quis sair de Downtown, lá, não existia felicidade.

Agora, você deve se perguntar: quais tristezas prendiam esse homem a uma terra da qual nem o diabo ouvira falar e que só causava amarguras…? Suspeito, meu amigo, que ao conhecer os motivos você irá acusar de loucura o que irei lhe contar.

Era como um ímã. Uma ligação amaldiçoada com aquela maldita igreja que parecia carregar em suas colunas tanta alegria, mais tanta alegria, que mal cabia em meu peito: as alegrias de todos que viviam presos em seus passos cabisbaixos naquela cidade que tinha um brilho apagado do mundo.

Tudo ali era escuridão. No dia, nada brilhava; na noite, só se via o brilho amarelo… Nas esquinas, nas casas, até o rio em todo o seu mistério aquático abandonava a claridade das águas para reluzir um amarelo assombroso que cegava a todos e fazia Downtown ser apenas um ponto de escuridão em todo o mundo. Mas era na igreja que tudo se escurecia mais. Ficavam ali, as esculturas em mármores martelando todas as suas dores sobre nós com seus olhos amarelos a nos vigiar a todo o instante para que nunca lembrássemos de tudo o que nos impedia de sorrir.

Era como se sofrêssemos por elas sofrerem, era o nosso carma. Era a missão de quem morava em Dowtown. Era o talento de quem nascia ali: viver de tristeza.

Certa feita, perdido nas contas do rosário, semeando a amargura que se alimentava da minha fé, questionei aos olhos amarelos que vigiavam a igreja: “Que seria a felicidade que tanto busco, meu caro irmão?”. Fui respondido com o silêncio, mas pude jurar que vi a expressão de todas as estátuas dali se fecharem num gesto de insatisfação. Preferi, então, não entrar em confronto com os onipresentes – optei por não interpretar os sinais que me mandavam.

Iria seguir a minha rotina, não fosse o poder que clareou as minhas vistas naquele instante, e me fez ver que Downtown era clara, tinha flores, árvores e pessoas com uma alegria tão perturbadora que fazia a nossa alma sair do nosso corpo e dançar. Tudo tinha luz, tudo tinha brilho… Menos o mármore da igreja.

Desejei que tudo pudesse ser claro sempre, que tudo pudesse ser colorido sempre, que as pessoas fossem livres das correntes que os olhos amarelos colocavam e que o resto de escuridão que sobrava naquelas terras fosse dissipado pela luz… O desejo era tão forte que não tive controle quando ele tomou forma agressiva e passou a ser o que fazia a igreja cair, eu poderia destruir cada bloco daqueles com minhas mãos se não tivesse meus instrumentos de trabalho comigo. Comecei a bater nas pedras da igreja com a picareta em meio aos gritos desesperados das pessoas ao ver a sua fortaleza despencando parte por parte.

Eu nunca quis sair de Downtown, lá, não existia felicidade. E ainda não existe.

Naquele dia, as pessoas me arrastaram para longe da igreja, para longe da cidade e me proibiram de voltar, como se tivessem, elas algum controles sobre as fronteiras que nunca existiram. Foi ali, diante da placa, “Seja bem-vindo a Downtown” que eu vi que a escuridão não era da igreja, que os olhos amarelos não eram das estátuas, que a tristeza não era uma corrente colocada pelos onipresentes… Cada um se fazia senhor de sua própria alma e a vendia para o diabo quantas vezes quisessem por uma bagatela, só para se tornarem algozes de tudo aquilo que lhes roubava o grito que coloria a vida.

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