o estranho

Era engraçado como quando estava perto dele ela sentia algo que não sentia perto de ninguém: segurança. Era como se quando seus braços, nem tão fortes, a envolviam, nada pudesse tocá-la, nenhum mal, nenhuma sombra da insegurança ou mesmo as várias dúvidas que rodeavam a sua cabeça nas horas que passava longe dele.

Ele era seu anjo, sabia. Se lembrava como se fosse ontem de como tudo aquilo havia começado. Era mais uma quarta-feira gelada do mês de agosto e se recordava da forma como ele se ofereceu para ajudá-la com as compras do mês; inesperado, surpreendente… Bem que pensou em recusar, nunca o vira no prédio, nem circulando a vizinhança, mas estava tão cansada do trabalho, tão exausta da vida que acabou aceitando. E, pela primeira vez, um estranho entrou em sua casa; se lembrou de como ele foi educado deixando as compras no balcão da cozinha, de como ele foi afável ao sorrir e se despedir dizendo que era sobrinho de dona Sueli, a sindíca do prédio. Podia ver em seus traços que ele era mais jovem que ela e, pelas suas atitudes, sabia que a frase: “não se fazem mais homens como antigamentes.”, não tinha sentido nenhum perto dele; ela se lembrava muito bem do sorriso bobo que formou em seus lábios logo que ele deu as costas. E, agora, sentindo o seu abraço, ela sorria em meio a todas essas lembranças. É, ela  se lembrava… De como esses encontros casuais se repetiram na quinta, na sexta, no sabádo e nas outras semanas, até quando ela decidiu deixar o preconceito de lado e eles trocaram os telefones.

Se encontraram em um outro sabádo, dançaram, tomaram tequila e vodca e, depois disso, ela só lembrava de ter acordado na cama de solteiro dele, seus corpos abraçados, envoltos pelo mesmo cobertor branco, que estava molhado de suor e misturado com o cheiro forte das bebidas. Ela lembrou que desceu da cama com delicadeza, mais pela dor-de-cabeça que estava sentindo, do que para ter o cuidado de não acordar o rapaz; saiu apanhando suas roupas espalhadas pelo chão da casa para sair antes que ele acordasse ou que os pais dele aparecessem; se lembrou de como as pessoas a olharam logo que ela começou a gargalhar sozinha no ponto de ônibus, ao pensar que se comportara como uma adolescente e ao perceber que – mesmo com a dor-de-cabeça – há tempos não se sentia tão bem.

Suas amigas chamaram-na de louca logo que souberam do que havia acontecido, ele era mais jovem e, mesmo que já trabalhasse, ainda morava com os pais; ela lembrou de acreditar que elas tinham razão, mas se esqueceu completamente da razão quando ele lhe telefonou. Se encontraram novamente no mesmo local. Dançaram as mesmas músicas, beberam as mesmas bebidas do último encontro, só que dessa vez amanheceram abraçados na cama de casal da casa dela. E foi naquela manhã ensolarada de setembro que ela percebeu que, pela primeira vez, um estranho havia entrado em sua vida e mexido com o seu coração de pedra, não só isso, ele também bagunçou a sua cabeça tão metódica e organizada e fez com que ela mudasse o seu comportamento sempre tão correto e sensato.

E os dias foram passando, e cada minuto que ela passava ao lado dele, ela tinha a certeza de que era ali que o seu coração repousaria para sempre. Sim, ele era o seu anjo. Um anjo que podia amar e que conseguia fazer o amor nascer e renascer a cada dia, conseguia apaziguar as brigas que ela insistia em iniciar invertendo os papeis deles.

Olhando para o horizonte, ela sorriu mais uma vez perdida entre as lembranças de tudo o que havia acontecido para que eles conseguissem chegar até aquele momento que,  mesmo sendo tão comum nos últimos dias, não perdia a sua magia da primeira vez. “Eu te amo…”, ela sussurrou, mas ele não respondeu, ela tentou ver seu rosto, mas só conseguiu ver os seus olhos fechados, ele dormia; ainda olhando a sua face angelical, ela sorriu e alisou o seu tórax. “Eu te amo.”, ela repetiu, na esperança de ele ouvisse a sua declaração em meio aos seus sonhos.