“só sei dançar com você”

Dançando com você num fim de tarde…

Van Morrison a tocar, sua voz intensa a perpetuar dentro de nós como um eco; minha mão sobre a sua e o mar a observar, eufórico, no vaivém de suas ondas, os nossos  passos desajustados, desajeitados, nessa balada lenta.

E então concluímos que talvez ele tenha feito essa canção para mim, porque sabemos muito bem: tudo o que eu precisava era de alguém como você… Alguém que me fizesse renascer e fizer nascer coragem em mim, coragem para dançar e curar as feridas que eu escondo debaixo de  minha pele, alguém que me chamasse para tomar chá de camomila no calor dos fins de tarde do verão ou sorvete nas madrugadas frias de inverno.

Tem gente não consegue perceber, mas isso também é amor, isso também é você, somos nós…  Somos nós a girar na varanda do apartamento, a rir e a chorar de rir, a ver o sol partir, a ouvir o vizinho gritar no andar de cima pedindo para abaixar o volume.  Mas, foi você que disse: “É impossível ouvir Van Morrison baixinho.”. E aumentou o volume ao me puxar pela mão falando que me ensinaria a dançar, mas, se tratando de dança, você é pior que eu… Só que nessa junção de duas partes ruins parece que houve o repouso da perfeição, dançamos em passos sincrônicos, na mesma batida da música, na mesma batida do coração…

E logo percebemos que a música começa a ficar baixinha, vemos que o céu já escurece, que a lua dá o ar de sua graça e que, provavelmente, o chá de camomila já deve estar frio; você, sem sorrir, confessa o seu amor por mim e, a segurar o meu corpo contra o seu, beija-me. Não lembro se já tem estrelas no céu, mas, de olhos fechados, já posso vê-las.