Decadentista

Nunca serei o que realmente quero ser
a vida é cruel demais com quem segue
seus sonhos.
O melhor é afundá-los na mala
e rir entalada com o sufoco do falso sucesso.

Nunca serei o que realmente quero ser,
sou uma ovelha
e sigo o meu rebanho.
Reconheço o meu lugar
e não é em revoluções,
em palanques
ou escrevendo.

O meu lugar é no senso comum.

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perspectiva

Dentro de mim há um profundo abismo.
Eu baratino em busca de compreensão
e só encontro luz.

Vejo, com olhos de dor, que a vida é mais
do que o sangue, o medo e a solidão
insistem em mostrar.

Ponho tête-à-tête luz e sombras
e me atrevo a cegar-me na luz.
[A duras penas confesso
que é a dor mais serena que sinto]

Descortino a verdade com peso no coração:

Fora do abismo há vida.
Dentro de mim é que não havia.

Pompéia

Queria falar mais do que posso,
meu coração balbucia
[em segredo]
e a minha cabeça insiste em dizer
que o silêncio é a melhor opção.

Nunca gostei do silêncio e de me calar
diante dos nervos eufóricos
que querem pular de mim.

Sou como um vulcão, amor,
e você é como um mar.

Quando eu entro em erupção
suas ondas engolem minha lava
e todo o meu poder de fogo
se dissolve
no sal do seu amor.

Terror noturno

A eternidade se prende a seis curtos minutos.
Quando o horror nos domina é assim:
o tempo passa com dureza.

Pior que a dureza do tempo, era a maciez
das mãos
que me prendiam, me agarravam.
Nada de bom pode vir de mãos fortes e macias.
Nada de bom.

Quando o horror nos domina é assim:
o belo cobre seu reflexo.

No suor matinal, tive certeza que a realidade
não fazia parte
do meu juízo perfeito.

Eu não tinha o juízo perfeito.
Quando o horror nos domina é assim…

Tenho que aprender a engolir meus medos.

Abra-te, sésamo!

Existe uma porta que eu tenho medo.
Existe uma porta que eu não quero ouvir
o giro da maçaneta.
Existe uma porta que às cinco da manhã
desperta em mim,
e convida todos os pesadelos a pôr em banquete
o meu fígado
enquanto eu sorrio como uma pintura renascentista.
Existe uma porta que não existe,
mas que eu sempre atravesso,
com uma palavra que eu não conheço
e que, no fim,
sempre me mata.