porta joias

Se eu te tirasse de mim
quebraria
o colar de prata que você me deu,
quebraria
o elo que temos,
se é que temos algo além…
Se eu quisesse te tirar de mim, tiraria
pedra a pedra,
pau a pau,
grão a grão,
porque assim dói mais e
tudo se torna mais claro
para quem é míope.
Se eu pudesse te tirar de mim
era só jogar as pérolas no chão,
os pratos na pia,
as toalhas na máquina,
deixar tudo limpinho e com cheiro de desinfetante
floral,
pra depois espanar o meu sangue e o seu,
pra depois me espalhar,
me fragmentar
e refletir
em prisma
nos seus olhos caóticos.

Anúncios

Muito além (…)

Nunca tinha se deparado com ela naquele estado. Triste. Seu brilho, suas cores, seu sorriso… Tudo estava perdido na imensidão branca das paredes daquele lugar. Os olhos dela – sempre cintilantes e luminosos – estavam, agora, foscos, fixos em qualquer coisa que ele não podia enxergar, porque só existia no mundo dela. 

Ela estava deitada no chão gelado, também… Diante daquele calor que preenchia os últimos dias, nenhum colchão lhe parecia suficientemente confortável, preferia a dureza do chão. A verdade, é que nem se importava muito com tanto conforto… Já estava bem acostumada com a dureza da vida, das pessoas, mas, vez ou outra se permitia o luxo de deitar num colchão confortável.

Ele olhou-a mais atentamente. Os cabelos estavam desgrenhados, os olhos sairam do repouso em que estavam e passaram a ficar inquietos, cambaleantes, perdidos. Desentendido, ele sentou ao lado dela. Não encontrou resposta nem mesmo acompanhando o seu olhar. Resolveu deitar para acompanhá-la naquela viagem, para tentar compreender o que acontecia ali – ou naquele mundo paralelo que ela vivia.

– Constelações.

Ela disse apontando para cima sem olhá-lo. Ele apertou os olhos tentando enxergar, mas só via o teto – também branco – do quarto.

– Constelações.

E sorriu. Ele olhou-a, admirou seus dentes expostos numa felicidade que ele desconhecia, e quis provar daquilo; pensou que, talvez, a menininha que conhecera não tivesse se perdido no labirinto de si própria, restava algo vivo e luminoso, não só as sombras do desconhecido…

Mais uma vez, ele olhou o teto em busca das estrelas que ela dizia ver, mas só enxergava aquele branco, aquele vazio, sem graça e triste, nenhum brilho especial, nenhum rastro de cometa, nenhum sol cintilante… Nem se deu conta de quando a menininha tapou a sua visão com as pequenas mãos dela, enquanto soltava risos doces que antes preenchiam a casa e, hoje, só vivem presas nas lembranças que ele queria reviver.

Ela retirou as mãos de seus olhos e, ainda sorrindo, mais uma vez, apontou para o teto:

– Vê?! Constelações!

E gargalhou. Ele estava boquiaberto, achou melhor sentar diante do que via. Olhava para o teto como se algo mágico estivesse ali. E tinha. Ele também começou a gargalhar com a menina, e soluçava de felicidade. Apanhou-a em seus braços, beijou seus cabelos bagunçados e, ao ver o rastro de um cometa, concluiu:

– Vejo sim.

(risos)

Estava escuro.
Escuro.
E minha barriga tremia,
pareciam rasgar meu estômago.
Rasgavam.
Engendravam a maldade em mim,
a frieza;
moldavam um riso diferente em meu rosto.
Sorri.
Gargalhei.
Descabelada,
gritei com as sombras,
esmurrei as paredes,
acho que matei alguém
(dentro ou fora de mim).
Acho que matei alguém.
Morri.
Matei.
O silêncio se apoderou de minha morada,
e no dia seguinte,
acordei
em frente à janela do hospício.

Doutora Letícia,

Estou lhe escrevendo esse bilhete porque comprei uma rede e pus em meu quarto na tentativa de acalmar os meus nervos que andam a flor da pele, mas nem mesmo o seu balanço – que me lembra o de uma jangada seguindo pelo mar – conseguiram fazê-lo. É como já lhe disse diversas vezes em nossas constantes sessões: as gavetas de minha antiga cômoda amadeirada (aquela que você muito apreciou em sua visita a minha residência) estão cheias de problemas que deixei para resolver mais tarde. Tantos… Que até comprei um daqueles remédios que você me indicou em nossa última conversa, só pra ver se os esqueço enquanto durmo. Difícil, eu sei, mas a gente tenta, não é?

Nunca lhe contei, doutora, até porque achei que fosse só uma fase, mas não foi. Faz um bom tempo que a minha maior vontade é dormir em paz, ou melhor, dormir! Não consigo! É impossível! Você sabe o porquê, doutora, me lembro muito bem que lhe revelei em uma de nossas conversas. Em qualquer lugar da casa, ou fora dela, ainda posso ouvir os restos dela (que estão dentro daqueles sacos de lixo nas gavetas da cômoda) implorar pela paz de su’alma. Já gritei, mas ela não me ouve; já tomei aqueles remédios e ela aparece em meus pesadelos. Vejo-a nos reflexos, ouço sua voz em tudo o que produz sonoridade, às vezes – muitas! – sinto-a me seguindo pelos lugares. Você acha que eu estou enlouquecendo, doutora? Acha que internamento ajudaria? Ou algum remédio mais forte? Qualquer um… Eu tomaria! Sem reclamar. Prometo. Ou você acha que só a morte seria um lugar seguro agora? Que só com o suicídio eu teria paz, e ela também…

Sei que está de férias, mas me responda o mais rápido que puder. Por favor.

Com angústia, seu paciente,

Leandro.    

causa mortis: solidão

Ela sempre gostou de sentir aquela dor lacerante e nunca encontrou o porquê, mas era um fato que algo nela a impedia de ficar muito tempo perto de qualquer coisa ou qualquer pessoa que lhe fizesse bem. Era sempre a mesma história… Nos relacionamentos, ela encontrava pretextos para se afastar, pretextos que, na maioria das vezes, não eram cabíveis; ele era ausente demais e ela precisava de muita atenção, ela era demasiadamente problemática e ele não tinha nenhuma obrigação de aturá-la e ser infeliz com o seu humor inconstante, ou ele poderia ser muito atencioso e ela reclamaria de tanta atenção porque aquilo a sufocava e ela acabava tornando-se desmerecedora de tanto amor em sua vida.

Muita gente dizia que ela era igual maré: de lua, e era por isso, que amá-la não era uma missão fácil; o que não quer dizer que ninguém tenha tentado, aliás, muita gente tentou! Tentou com perseverança e coragem, lapidar aquele coração bruto e arrancar daquela’lma o humilde lar da senhora tristeza. Mas, tais tentativas eram vãs e os corajosos cavaleiros acabavam cedendo aos seus constantes delírios de solidão.

Ela não era daquelas mulheres fisicamente excepcionais, mas aquela sua mente insana, desprovida de uma gotícula da essência do juízo, era extremamente sedutora. E eu até entendo que você se questione o porquê – afinal, o que há de belo na loucura?. Mas, é bem simples: a loucura nos envolve em sua teia bem tramada e nos seduz com seus enredos encantadores nos fazendo acreditar nas mais sórdidas – e absurdas! – historinhas.

A loucura é, de fato, encantadora… E ela também era. Mas morreu sozinha, sentada na varanda de um hospício, provavelmente, saturada de tanta solidão.

Fonte da foto

mil (e um) avessos .

Nesse exato momento estou ajeitando as minhas roupas naquela maleta preta que compramos ao passar por Veneza; me lembro que você reclamava a todo o instante do cheiro de esgoto que a cidade tinha, mas ficava encantada com tanta beleza e tanta folia (o seu olhar não parava de brilhar a cada instante que via as ruas tomadas por aquelas máscaras e fantasias). Agora, o seu olhar está sem o brilho de outrora e, da porta, você me pergunta, fria,  se eu não estou esquecendo nada; eu só te olho enquanto jogo aquela camisa bege que você acha que cai tão bem com a gravata azul-petróleo, pensando em dizer que sim, e perguntar onde você deixou todos aqueles planos, aqueles projetos bobos que fizemos enquanto estávamos deitados na mesma cama em que se encontra, agora, essa mala, mas prefiro me calar diante da sua imagem gípsea com os braços cruzados e o olhar distante, sem expressar nenhuma emoção…

Na pecinha já não estão mais aquelas fotografias que tiramos na visita que fizemos para a fazenda de seu tio, nem o cinzeiro que guardava os restos de meus cigarros, provavelmente você os jogou fora junto com todo aquele amor que você dizia sentir. O que aconteceu? Me pergunto a todo o instante, afinal ontem à noite você disse que me amava e que queria cerejeiras no quintal; hoje, você recusou minhas rosas e me recebeu com os olhos marejados me pedindo tirar as minhas coisas de sua casa, que a mala já estava na cama, que eu só precisava jogar as coisas lá. Tudo bem, eu confesso: passei muito tempo longe, tempo o suficiente para você me odiar, mas naquela manhã nebulosa e fria, quando nos encontramos no café que fica perto do teatro, você sorriu aquele riso cheio de luz – que até parecia que as nuvens resolveram se abrir e deixar o sol mostrar seus raios mais luminosos – e perguntou se podia sentar comigo. Sim, é claro, você podia. E você me aceitou de volta em sua vida, e a minha vida voltou a ser você, e agora estou aqui – onde o inicio, o meio e o fim de nossa história teve inicio – fechando uma mala cheia de boas recordações enquanto você me observa do umbral  de seu quarto.

Acho que você tentou sorrir para substituir o tom doce de sua voz a me dizer: “Ei, meu amor, a vida segue.”. Mas, eu já sei disso; ela segue… Em passos lentos e serenos, como os meus na direção da saída de sua casa.  Pouco antes de sair, pego o meu chapéu na arara e te vejo caminhar pela sala na direção da escrivaninha de jacarandá onde ficam espalhados os papéis do interminável romance que você escreve; você senta e volta a escrever, e eu espero que você se volte para mim, me pedindo pra ficar. Mas, você não o faz.

“Adeus.”, eu sussurro meu ultimato mesmo sabendo que você não escutará – quando começa a escrever, parece que se tranca em um universo paralelo. Ainda te contemplo ao jogar as chaves de sua casa no aparador. “Escritoras…”, eu penso, “Sempre tão inconstantes.”, concluo ao fechar a porta com um trecho de um dos contos de Florbela Espanca a perturbar a minha mente: “Que mulher era então ela? Que mulher era aquela mulher? Que mulher era a sua mulher? Quantas mulheres ele tinha?“. Não sei. Nunca saberei. O melhor é ir embora antes que ela mude de ideia e me enlouqueça de vez ao me mostrar todos os seus outros mil avessos.