lilith foi expulsa do paraíso

Estou perdida demais por entre essas folhas
para escrever qualquer coisa sensata.
Rasguei as minhas vestes,
a forma insana que encontrei de pôr pra fora a minha histeria,
coisa que só atinge mulher.
Fiquei nua, como Eva.
Coberta de vergonha, como Eva.
Eu sou Eva. Ou quase.
Faltam-me os cabelos longos,
uma dose de maldosa ingenuidade e um Paraíso para pôr em chamas.
Em chamas como o meu corpo
que é incinerado pelo fogo da raiva como se estivesse sendo queimado
na fogueira da inquisição.
Penso que, talvez, os gritos deles estejam certos
e eu seja isso mesmo: uma bruxa que merece ser queimada,
porque Deus
poupou os homens de um bom senso de justiça.
Homens que se fazem brinquedos e fazem,
alguém dentro de mim, se desmanchar em risos
porque algo em mim se perdeu também
e já me dizem que não é bom ser o que me descobri.
Eva ou bruxa. Santa ou não.
Ser mulher nunca foi vantagem pra sair gritando.

quinquilharias

Ontem, enquanto caminhava pela pracinha, me disseram – entre os mais diversos assuntos – que eu deveria te jogar fora, que você não presta e aquele blábláblá que eu conheço de cor e salteado, porque já escutei centenas de vezes das mais variadas fontes e sei que é verdade. Logo que ouvi isso, soltei aquele risinho cafajeste que te conquistou porque, bem, você sabe, é até engraçado pensar que eles realmente acharam que a tua pseudo-inocência conseguiria apagar as lembranças de todas as coisas que o teu corpo sensual produziu em mim.

Acho que depois que eu ri, a pessoa saiu – provavelmente, um tanto irritada por eu não ter dado atenção merecida aos seus conselhos, ignorando o famosíssimo ditado de que “quem avisa amigo é” -, mas não lembro muito bem do que aconteceu, afinal, uma série de pensamentos encheu a minha cabeça. Descobri que me enche de angústia não saber o que, em você, abalou demais em mim. Inicialmente, achei que fosse o sexo ou os seus peitos, mas sexo bom e peitos bonitos não são duas coisas difíceis de achar aqui ou acolá, seu rosto não é um dos mais bonitos (você tem olhos meio tristes e lábios meio murchos), a sua voz não é tão doce quanto eu gostaria e nem seus gostos os mais agradáveis, pode até ser as curvas de seu corpo – elas são perfeitas como nunca vi em nenhuma outra criatura forjada por Deus -, mas não tenho tanto apego por elas. Mas, seja lá o que você tem de diferente de todas as outras trocentas que já cruzaram o meu caminho, isso me fez fumar mais, beber mais, dançar menos e passar as tardes ouvindo qualquer coisa que me deixe meio triste e mórbido, como aquele teu olhar perdido (ou embaraçado?) fixo em todos os cantos da parede e também em lugar nenhum, enquanto seus braços estão agarrados ao mesmo lençol sujo que envolve o teu corpo, e a tua mente, provavelmente, presa às suas crônicas e incontáveis angústias.

Assim, como a maioria das pessoas que te conhecem, Rosa, eu não te quero bem – na maior parte do tempo eu odeio tudo em você; teu batom vermelho – mais parece sangue a brotar de teus lábios que sempre me parecem estar faminto -, teu corpo – que parece um convite à perdição -, tua voz e aquele teu maldito perfume, que sinto o cheiro ao cruzar cada esquina dessa cidade. E confesso envergonhado: foi por isso que eu pensei em te jogar fora da primeira vez que me aconselharam, mas mudei de ideia logo que te vi se aprontar pra ir embora, me perguntando – com um cigarro na boca e as mãos ocupadas vestindo a calcinha – o que tinha me dado naquela noite. Foi ali que eu tive a certeza de que não encontraria ninguém como você, sabe? Daquelas mulheres que gostam de ler o horóscopo só pra rir do destino, que conseguem abrasar a minh’alma só com a tristeza do olhar, uma mulher que me conquiste pelos seus defeitos mais cruéis ou que me entenda só pelo jeito que tamborilo os meus dedos.

E foi aí que eu descobri qual era a sensação da impotência. Como eu posso ter algo tão ruim em minha vida e não conseguir arrancar esse mal dela? (E é bem engraçado te ver sorrir de tudo isso agora com um copo de conhaque na mão, porque parece que as ironias do destino também te divertem bastante…) Fiquei irritado naquele dia e joguei fora algumas das coisas que eu estocava em meu porão; tinha um espelho antigo entre todas essas quinquilharias, ele era grande e tinha uma belíssima moldura que já estava estragada, o vidro também não estava intacto, estava cheio de rachaduras, mas eu ainda podia ver o meu reflexo. Aí eu sorri, sabe por que, Rosa? Porque eu descobri que não consigo te jogar fora, pois você é como o meu espelho: apesar de estar destruída e ser aparentemente inútil pra mim, toda vez que eu olho pra você, eu consigo lembrar de quem eu sou. Pode rir à vontade, e ria ainda mais agora, mas maior verdade nunca saiu dos meus lábios: teu mal me faz bem tremendo, mulher! E me admira que alguns desses ditados que minha mãe sempre me falava quando eu era menino, tenha agora uma ponta de sentido, ‘há males que vem para o bem. ’, era o que ela dizia, mas eu fui além, e escolhi que esse teu mal assolasse a minha vida.

mil (e um) avessos .

Nesse exato momento estou ajeitando as minhas roupas naquela maleta preta que compramos ao passar por Veneza; me lembro que você reclamava a todo o instante do cheiro de esgoto que a cidade tinha, mas ficava encantada com tanta beleza e tanta folia (o seu olhar não parava de brilhar a cada instante que via as ruas tomadas por aquelas máscaras e fantasias). Agora, o seu olhar está sem o brilho de outrora e, da porta, você me pergunta, fria,  se eu não estou esquecendo nada; eu só te olho enquanto jogo aquela camisa bege que você acha que cai tão bem com a gravata azul-petróleo, pensando em dizer que sim, e perguntar onde você deixou todos aqueles planos, aqueles projetos bobos que fizemos enquanto estávamos deitados na mesma cama em que se encontra, agora, essa mala, mas prefiro me calar diante da sua imagem gípsea com os braços cruzados e o olhar distante, sem expressar nenhuma emoção…

Na pecinha já não estão mais aquelas fotografias que tiramos na visita que fizemos para a fazenda de seu tio, nem o cinzeiro que guardava os restos de meus cigarros, provavelmente você os jogou fora junto com todo aquele amor que você dizia sentir. O que aconteceu? Me pergunto a todo o instante, afinal ontem à noite você disse que me amava e que queria cerejeiras no quintal; hoje, você recusou minhas rosas e me recebeu com os olhos marejados me pedindo tirar as minhas coisas de sua casa, que a mala já estava na cama, que eu só precisava jogar as coisas lá. Tudo bem, eu confesso: passei muito tempo longe, tempo o suficiente para você me odiar, mas naquela manhã nebulosa e fria, quando nos encontramos no café que fica perto do teatro, você sorriu aquele riso cheio de luz – que até parecia que as nuvens resolveram se abrir e deixar o sol mostrar seus raios mais luminosos – e perguntou se podia sentar comigo. Sim, é claro, você podia. E você me aceitou de volta em sua vida, e a minha vida voltou a ser você, e agora estou aqui – onde o inicio, o meio e o fim de nossa história teve inicio – fechando uma mala cheia de boas recordações enquanto você me observa do umbral  de seu quarto.

Acho que você tentou sorrir para substituir o tom doce de sua voz a me dizer: “Ei, meu amor, a vida segue.”. Mas, eu já sei disso; ela segue… Em passos lentos e serenos, como os meus na direção da saída de sua casa.  Pouco antes de sair, pego o meu chapéu na arara e te vejo caminhar pela sala na direção da escrivaninha de jacarandá onde ficam espalhados os papéis do interminável romance que você escreve; você senta e volta a escrever, e eu espero que você se volte para mim, me pedindo pra ficar. Mas, você não o faz.

“Adeus.”, eu sussurro meu ultimato mesmo sabendo que você não escutará – quando começa a escrever, parece que se tranca em um universo paralelo. Ainda te contemplo ao jogar as chaves de sua casa no aparador. “Escritoras…”, eu penso, “Sempre tão inconstantes.”, concluo ao fechar a porta com um trecho de um dos contos de Florbela Espanca a perturbar a minha mente: “Que mulher era então ela? Que mulher era aquela mulher? Que mulher era a sua mulher? Quantas mulheres ele tinha?“. Não sei. Nunca saberei. O melhor é ir embora antes que ela mude de ideia e me enlouqueça de vez ao me mostrar todos os seus outros mil avessos.