“aquilo que dá no coração”

Saudade é uma palavra tão forte e é um sentimento mais forte ainda…

Tem aquela saudade nostálgica, quando a gente lembra dos tempos de criança e dá uma vontade doida de voltar a subir no pé de goiaba, de correr atrás das galinhas, de aprontar com a mãe e o pai e depois receber a ameaça de umas boas palmadas; tem aquela saudade saudável, que quando bate te dá aquele empurrãozinho para ligar para aquela pessoa que há tempos você pensava em ligar, mas tinha receio ou estava ocupado demais com outras coisas, supostamente, mais importantes; tem aquela saudade oscilante, quando a nossa mente se enche de boas lembranças, nós damos risada de tudo o que aconteceu, mas de repente a tristeza bate e sentimos o coração ser espremido, espremido e espremido, até quando saem lágrimas de nossos olhos e a sensação de solidão aparece e se soma a sensação de necessidade.
Ultimamente, eu e esse último tipo de saudade nos tornamos bem íntimas. Vejo coisas que não deveria ver e me delicio com as lembranças de um passado que não existiu, é quando eu menos imagino que a tristeza aparece, ela bate, toca minha alma e eu não consigo fugir; sinto as lágrimas brotarem e meu orgulho me ajuda a tentar evitá-las, mas o orgulho não é forte o bastante para segurá-las, então eu choro, choro, choro e percebo que aquele vazio nunca será preenchido – pelo menos não por quem eu quero; e lembro dos planos que eu fiz e lembro quando eu te vi eu pensei que eu não devia fazer planos, eu era passageira em sua vida, mas demorou para eu perceber que eu me perdi nesses vagões, e você quem virou passageiro em minha vida, e foi embora quando eu menos esperava – quando eu mais precisava – e quando eu finalmente acreditei que seria para sempre, me esquecendo das palavras da canção que diz “que o pra sempre, sempre acaba.”. Me esqueci. Me perdi. Te perdi. E eu preciso de você, quero você, mas sei que não terei, então, é justo lavar meu rosto, esquecer de tudo o que vivemos, de tudo o que eu pensei que viveríamos! É justo apagar as nossas fotos do meu computador, é justo e é fácil. Difícil mesmo é apagar as lembranças…

meu amado Arthur,

num domingo primaveril desses, papai recebeu a visita do tio Gregorious e me pediu para tocar piano enquanto eles conversavam. Você bem sabe que o piano foi meu primeiro grande amor e que quando começo a tocar esqueço do mundo lá fora ou do mundo aqui dentro, mas foi impossível me concentrar sabendo qual era o assunto que eles tratavam. Errei a melodia inúmeras vezes e recebi aquele olhar condenador do tio Greg – que você sempre imita de maneira tão divertida -, enquanto tentava ouvir as notícias de guerra, afinal é no fogo cruzado que se encontra o meu coração.

Não entendi muita coisa, confesso, mesmo que você tenha me explicado algumas poucas coisas a respeito disso antes de partir, mas o que importa é que tudo indica que estamos vencendo e que logo, logo você voltará para os meus braços me trazendo a paz que só os dias conturbados e exaustivos do nosso amor escondido conseguem me dar.

Eu sinto a sua falta, Arthur…

Sinto falta de seus beijos, dos poemas de amor que você recitava no pé do meu ouvido, de sua imagem surgindo inesperadamente na sacada da minha janela me convidando para ir aos bailes; sinto falta das brigas que constantemente tínhamos ao sair do quarto da senhora Smith, porque você fazia uma bagunça incomum! Só pra tentar me mostrar quais eram os planos que você alimentava dentro dessa sua cabeça-dura… E eu nunca te contei, mas todos aqueles planos me alimentaram também. Na verdade, Arthur, são eles que ainda vem alimentando, me dando forças para não sucumbir diante de todas essas dificuldades pelas quais estamos passando nesses últimos tempos!

Quero que você saiba, meu amor, que  todas aquelas coisas horríveis que eu te falei quando você partiu, foi por medo de todos esses planos que me alimentam e que foram alimentados com tanto amor, com tanta esperança, fossem destruídos com essa distância. Então, por favor, não leve em conta todas aquelas bobagens! Eu não vou – e nem quero! – me casar com o Harry Roberts, não mesmo… O que eu disse foi por impulso, irritação, qualquer coisa assim, sem nenhuma gotícula de sinceridade. Eu sinto muito por tudo isso, me perdoe.

Te peço, também, que volte logo! Volte vivo para mim, volte inteiro para o nosso amor… A sua ausência está me matando, corroendo meu âmago, destruído meu coração… E não fale, como sempre, que eu estou sendo dramática. Não estou! Eu estou sofrendo de amor como as mocinhas daqueles romances que você acha uma porcaria… Volte, Arthur!

Vou te esperar todas as tardes no celeiro da fazenda da senhora Smith, com as malas prontas para fugir e o coração cheio. De ansiedade, de coragem, de amor.

Eu amo você,
Rose.