Minha querida Rose,

vou voltar, isso é certo; como você falou, estamos vencendo a batalha e logo, logo estarei aí. Só não posso lhe garantir que voltarei com a alma inteira, os horrores que vi e vejo no dia-a-dia por aqui é pior do que qualquer coisa que eu já vi nessa vida ou que já ouvi de você.

Piano… Sorri feito um bobo me recordando de todas aquelas canções que você tocava para mim no piano da senhora Smith, pouco antes de sairmos da casa dela tentando deixar tudo arrumado para que não percebessem que tínhamos passado por ali; aquelas canções eram lindas quanto a sua voz, e a serenidade delas conseguia me acalmar.

Também sinto falta de passar todos aqueles momentos maravilhosos com você, Rose, mas, mais que isso eu sinto falta de ter contato com a vida, sabe? Aqui só tem morte e morte por todos os lados! Em algumas trincheiras encontramos a angústia e o medo, mas a morte é mais presente… Seu cheiro em nossas roupas, seu nome em todas as notícias… Agora a pouco mesmo, perdi um grande parceiro: um pai de família honrado, jovem, forte, digno! Não consigo entender porque um homem tão bom se foi, e passo grande parte do meu tempo pensando no martírio da família dele ao receber a notícia. E sei muito bem que nesse momento você vai sussurrar ao vento: “Você não devia estar pensando nessas coisas, Art.”, e eu te responderia tão friamente que você mal me reconheceria: ” É inevitável.”.

Mas, é como eu já falei – e repito agora: a guerra está acabando e em breve voltarei para os campos verdejantes de minha terra.

Eu quero te ver, Rose, mas eu quero que você desfaça suas malas, esvazie o seu coração e me esqueça, porque quando nos vermos será por uma última vez. Case-se com o Harry Roberts na próxima primavera, e eu não estou te pedindo isso por todas aquelas blasfêmias que você disse em nossa última conversa, mas porque ambos sabemos que isso é o melhor para você.

Antes de perder minhas noites de sono com os delírios fantasmagóricos que ganhei da guerra, eu sempre penso em você e em todos esse planos que você falou em sua carta. E é fato que eu nunca poderia te dar a vida que planejamos, a vida com o seu piano, com as suas roupas, suas joias… Eu sei, eu sei que nos amamos e que isso é importante! É importante, mas não é tudo… Agora você entende porque eu acho aqueles romances que você vive lendo uma porcaria? Eles não são reais, Rose! O amor não resiste à todas as barreiras que a vida impõe… Por isso te peço a coisa mais sensata para nós nesse momento: case-se com o Harry Roberts.

Não pense que o meu amor por você acabou… Se fosse assim, eu nem usaria o pronome possessivo ‘minha’ para iniciar essa carta porque, você bem sabe, eu não vejo como meu o que é dos outros. Você é e sempre será minha, Rose! E o meu coração também será seu pra sempre, como prova desse amor. Eu te amo, minha querida, e por te amar demais, eu estou abrindo mão de você e de todos os nossos planos. Eu estou saindo de sua vida.

Me perdoe,
Arthur.

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