faixa de pedestre

Quando a música termina eu penso
que foi melhor mesmo
não ter batido em sua porta.
Certas coragens nao valem metade dos risos
que poderiam ser.

Quando a música arranha,
me arranha essa saudade e eu penso
em discar o teu número, te enviar um telegrama
ou uma mensagem na garrafa,
porque você vive do outro lado de mim.

Uma ilha.

Mesmo que você esteja em terra firme, sem qualquer marca
de encanto.
mesmo que você seja só mais um partido
partindo para o centro da cidade
e morrendo mais rápido
que as árvores
a cada
sinal amarelo

a minha estante

Palavras não me encantam

tanto quanto o ar seco daqui;

é saudade demais

pra pouco léxico.

Não sei transmitir,

nem gosto de me desnudar tanto diante dos olhos atentos que leem essa poesia

mas, garanto que ficaria em carne crua

para mostrar que o que sinto é verdadeiro.

E é.

Barulho de liquidificador,

cheiro de frango cozido,

risadas que vem da cozinha.

Tudo muito palpável.

Estou em meu mundo real. Estou em um conto de fadas.

E mesmo com toda essa celeuma daqui,

devo confessar:

não me encaixo tão bem em nem uma outra estante.

cheiro de saudade .

Ave-Maria!
Acordei com o cheiro do cuscuz e do café
na mesa da cozinha,
a meia luz.
Mainha gritando a menina
que dorme até meio-dia.
Eu sempre gostei de cuscuz
e do cheiro de vela que mainha tem;
cheiro de quem conta
as ave-marias,
os credos,
os pecados
e pede perdão
pra’noite contar histórias
sobre a moça do brinco de ouro.
Eu tenho brinco de ouro,
e medo de ir pra beira do rio
[porque foi lá que a moça perdeu seus brincos…
Ave-Maria…!
Hoje é tudo só lembrança
e saudade…
Daquelas que se mata por voz no telefone
e nos faz rezar todas as noites,
olhando o céu com estrelas,
pedindo que todos estejam bem
e que a chuva tenha colorido tudo
com o seu verde natural.

“aquilo que dá no coração”

Saudade é uma palavra tão forte e é um sentimento mais forte ainda…

Tem aquela saudade nostálgica, quando a gente lembra dos tempos de criança e dá uma vontade doida de voltar a subir no pé de goiaba, de correr atrás das galinhas, de aprontar com a mãe e o pai e depois receber a ameaça de umas boas palmadas; tem aquela saudade saudável, que quando bate te dá aquele empurrãozinho para ligar para aquela pessoa que há tempos você pensava em ligar, mas tinha receio ou estava ocupado demais com outras coisas, supostamente, mais importantes; tem aquela saudade oscilante, quando a nossa mente se enche de boas lembranças, nós damos risada de tudo o que aconteceu, mas de repente a tristeza bate e sentimos o coração ser espremido, espremido e espremido, até quando saem lágrimas de nossos olhos e a sensação de solidão aparece e se soma a sensação de necessidade.
Ultimamente, eu e esse último tipo de saudade nos tornamos bem íntimas. Vejo coisas que não deveria ver e me delicio com as lembranças de um passado que não existiu, é quando eu menos imagino que a tristeza aparece, ela bate, toca minha alma e eu não consigo fugir; sinto as lágrimas brotarem e meu orgulho me ajuda a tentar evitá-las, mas o orgulho não é forte o bastante para segurá-las, então eu choro, choro, choro e percebo que aquele vazio nunca será preenchido – pelo menos não por quem eu quero; e lembro dos planos que eu fiz e lembro quando eu te vi eu pensei que eu não devia fazer planos, eu era passageira em sua vida, mas demorou para eu perceber que eu me perdi nesses vagões, e você quem virou passageiro em minha vida, e foi embora quando eu menos esperava – quando eu mais precisava – e quando eu finalmente acreditei que seria para sempre, me esquecendo das palavras da canção que diz “que o pra sempre, sempre acaba.”. Me esqueci. Me perdi. Te perdi. E eu preciso de você, quero você, mas sei que não terei, então, é justo lavar meu rosto, esquecer de tudo o que vivemos, de tudo o que eu pensei que viveríamos! É justo apagar as nossas fotos do meu computador, é justo e é fácil. Difícil mesmo é apagar as lembranças…