livro tal, capítulo x, versículo y.

De todos os males nascentes nem todos se fizeram ruins.
Porque há lições que só o acinzentado das horas nos dão.
Mas, as cores têm horas?
E as horas funcionam ao contrário?
A questão é que o tempo molda a vida, caro irmão,
sem usar as mãos, mas com instrumentos que desconhecemos.
Porque me disseram que Deus age misteriosamente
e eu, herege, já havia anunciado meu grande ódio pelos mistérios.
Por  isso a vida me desafia a cada milésimo que ando e me arrisco a respirar…
Não que eu fique ansiando a chegada da morte,
mas confesso que chego a roer as unhas
ao montar teorias num profundo desespero  em entender os mistérios divinos
[Deus que me perdoe!!!].
E enquanto rezo, numa súplica desse perdão
por tentar ver mais do que uma mortal
poderia ir,
lá dentro, a semente do fruto proibido, já havia apagado
qualquer vestígio  de luz
que estava aceso em mim.

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tic-tac .

a cada cinco minutos,

eu vou morrendo.

veneno

que suguei dos seus lábios.

a cada cinco minutos,

me lembro

das vidas

que vivi,

que morri,

que não cumpri o meu encargo.

a cada cinco minutos,

até o último grão de areia na ampulheta.

a cada cinco minutos,

o tempo vai se esgotando,

se esgota…

se es…

acabou.

rabiscos de um dia incerto .

Cinco minutos em que tudo pode mudar.
Com qualquer coisa boba ou com uma perda catastrófica.
Cinco minutos.
O momento em que eu vi o seu sorriso e que eu percebi que era hora de ir embora,
porque as órbitas de seus olhos me prendiam querendo se fazer de sistema solar em meu universo.

verbo conjugado no passado

Hoje eu o encontrei.

Estava no café lendo aquele meu livro de cabeceira quando o vi chegar. Ele me olhou de um jeito diferente, acho que é daquele jeito de quem acha que você está mais bonita do que da última vez em que se viram, e sorriu. Não lembro exatamente a data que nos vimos pela última vez, mas tenho certeza que foi no enterro do Joaquim, porque ambos estávamos muito abatidos pela morte de alguém tão querido, foi ali também a última vez que nos abraçamos. Ele melhorou bastante desde aquele dia… Está com o olhar menos triste, e essa barba cheia e bem feita quase me faz esquecer que ele era o mesmo meninão que brincava com os meus defeitos e com os meus sentimentos há alguns anos atrás.

Naquela época, se você me perguntasse qualquer coisa sobre ele, eu saberia responder sem balbuciar, mas hoje já não sei muita coisa a seu respeito; se eu ainda frequentasse as reuniões de nossa antiga turma, era bem provável que eu soubesse porque ele se divorciou e como o filho dele está indo na escola, mas parei de ir a esses encontros quando perdi a voz logo que ele veio falar comigo com um brilho diferente no olhar e cheio de empolgação. E eu vivia dizendo por aí que eu já tinha superado a nossa história…

Não me importo com ele, não como antes. Mas, as pessoas ainda insistem em gastar o tempo delas me contando intrigas sobre a vida dele, e eu não canso de me perguntar o porquê. Acho que é porque elas sabem que apesar de já não mais amá-lo, ele ainda mexe muito comigo e que isso, de alguma maneira, vai arrancar a casquinha de uma das feridas que carrego n’alma; acho que é aquele tal de sadismo, me entende? Ter, nos olhos, o brilho do prazer ao ver o brilho da tristeza reprimida no olhar de outrem, que engole as lágrimas e alimenta o orgulho com um falso sorriso…

Quando o vi essa manhã, com esse olhar tão diferente, nem achei que fosse ele – tinha muita admiração – e pensei que tivesse se tornado um novo homem, mas quando ele sorriu, pude ver que aquele meninão de anos atrás ainda estava lá, meio escondido, meio reprimido, esperando a oportunidade certa de mostrar os seus encantos. Não sei se eu era a oportunidade certa para que ele ressurgisse, mas eu preferi retribuir o sorriso, acenar, fechar meu livro e sair do café, antes que eu pensasse em conjugar o verbo ‘amar’ para ele em tempo presente.