no fundo do poço

Um beijo que não foi me dado,
foi dado num outro rosto,
num outro rapaz.
Um beijo que era pra ser meu, mas não foi
e, brincando de cara ou coroa, deu tudo o que eu não esperava.

Cara ou coroa?

E assim você vai decidindo
se fica por aqui ou se vai acolá.
Mas, preferiu pegar o trem que passava
antes das onze.
Porque tudo é conveniência ou assunto do dia,
e se algo quebra aqui o conserto não resolve
não há cola, nem cimento que dê jeito pra juntar.

Pra você, meu amor, o que une os fragmentos
é fragmentar.

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o dia que foi rasgado da agenda .

Não foi dos melhores dias daquela sua vida inútil.

Ele foi roubado na esquina de casa, ele perdeu coisas importantes – o emprego, amizades e algum presente antigo que insistia em guardar -, sem contar que parecia ter se desacostumado com o frio que costumava fazer naquela estação que diziam ser tão quente, tomou chá nas últimas semanas e ainda assim estava sendo abatido por uma crise de tosse e dor no corpo.

Não foi um dos melhores dias daquela semana, daquele mês, daquele ano que mal acabava de se iniciar. Percebeu que tinha mudado pra pior. Estava mais observador, mais exigente em alguns aspectos. Como podia chegar até ali e ficar exigente?! Cheio de frescurites com a vida, com sua casa, com as pessoas que o rodeavam?! Chegou a afirmar, a um desconhecido com quem pegara ônibus há uns dois dias, que vivia jogado às traças, quase um mendigo. Concluiu que aquele seu apartamento já não lhe era útil, que tudo ali estava muito velho e muito enferrujado – bem mais do que ele mesmo.
Não foi uma das melhores semanas. Brigou com ela centenas de vezes. Milhares de vezes. Na cozinha, na escada, no mercado com todos observando o showzinho. Gritaram, se beijaram, gritaram, gritaram, gritaram e ela não apareceu mais naquele apartamento, foi embora sem arrumar a cama e a cozinha dele. Deixou a cabeça dele um caos. Como um mosaico, cheio de cacos. Doia. Tomou analgésico.
Viu os papeis bagunçados na mesa. Recibos, prestações, IPTU, contas e mais contas! Viu as chaves da moto, um porta-retrato antigo, um papel amassado, uma bomboniere velha. Coçou a cabeça e sorriu.
Não foi um dos melhores dias pra ele. Tirou os sapatos, pegou uma cerveja bem gelada, abriu a camisa, deitou no sofá, ligou a TV. O análgesico faria efeito? Não sabia. Mas, um político foi preso, uma vida foi salva, uma criança nasceu…  Soltou um longo suspiro antes de pregar os olhos: “Lá fora continua tudo certo.”. Estava insatisfeito com a monotonia da vida.

sobre a felicidade .

Foi o velho rabugento quem me mostrou que a felicidade nunca é vista em ação; só percebemos que ela passou por nós quando olhamos no espelho e não reconhecemos quem é a dona daquelas grandes olheiras e daqueles olhos cheios de rastros da tristeza e do sofrimento, então lembramos dos dias em que ríamos até a barriga doer e fazíamos planos no corredor da escola.
Olhamos para o passado e moldamos um sorriso – aquele de quem quer que o tempo volte -, pensamos no futuro e algo nos diz que ele vai ser melhor, que em breve a felicidade voltará. Enxugamos as lágrimas e respiramos fundo.
Sim, amanhã será um novo dia. Vivemos com essa certeza esperando o dia de amanhã, mas esquecendo que o tempo de tentar fazer nascer a felicidade é hoje!